Visitar Sachsenhausen vale mais do que a leitura de centenas de livros



Dentre os diversos “elogios” que já ouvi na vida, alguns deles chegaram após a ida ao campo de concentração de Sachsenhausen, localizado nos arredores de Berlin. Sim, eu admito que uma das prioridades que coloquei na viagem à Alemanha seria visitar um campo de concentração, mas isso não me transformou em um Neonazista e nem me levou a um local cultuado por essas pessoas.

Antes que os “elogios” voltem, reconheço que o clima deste tour não é o mesmo de conhecer um estádio de futebol ou um belo parque. Por outro lado, é algo tão marcante que é difícil descrever em palavras.

Estar ali e ver de perto os detalhes daquela fábrica da morte reconheço que não é uma tarefa simples. Mas, por outro lado, ajuda muito a tentar entender e contextualizar a realidade daqueles que viveram os diferentes lados dos horrores ocorridos.

Para chegar à estação de Oranienburg é preciso bilhete do tipo A,B,C

Sim, é simples para se chegar até o local, mas recomendo com muita segurança: busque um guia de turismo local, pois o mesmo fará a sua ida do centro de Berlin até lá (em torno de 45 minutos) muito mais tranquila e com diversas informações, que enriquecerão demais a sua experiência. Diariamente, na Alexanderplatz, abaixo do relógio mundial, formam-se grupos que partem para este destino. No meu caso, escolhi a Vera Tours, que mesmo sendo em espanhol, foi excelente.

Logo ao chegar à Oranienburg já é possível notar que a região vive muito em função do turismo deste local e naturalmente já a faz ser um pouco mais sóbria do que as demais áreas da capital, que por sí só já são sóbrias por natureza.

Nesta via de acesso ao campo, milhares foram executados

Ainda antes de cruzar o muro, já é possível conhecer a via que os prisioneiros percorriam até serem registrados pelos seus algozes. Por mais bizarro que possa parecer, este local além de ter sido palco de diversos assassinatos, era também onde aqueles que ali trabalhavam iam se divertir, principalmente no casino que fora construído para eles.

Nada justifica tamanha brutalidade, mas já neste instante ficou claro entender que antes da tomada do poder por parte dos nazistas, essas pessoas não tinham nenhuma esperança na vida e de uma hora para outra conheceram um regime que lhes ofereceu tudo de bom e do melhor, mesmo que a custa de ações lamentáveis do ponto de vista corrente nos dias atuais. Como disse antes, este tipo de visita não serve para valorizar o sadismo, mas ajuda demais para que seja possível entender o que levou tantas pessoas a comprarem este estilo de vida que hoje o mundo lamenta já ter existido.

Conhecer um pouco mais a frieza dessas pessoas também nos assusta, afinal de contas neste momento também tomamos conhecimento que o campo era divido em diversos pontos, sendo que o primeiro, o portão de entrada, era conhecido com ponto A e o crematório, obviamente o último, ponto Z.

O formato do terreno faz com que as guaritas pareçam ser mais numerosas

Tudo ali foi pensado nos mínimos detalhes. Não por um acaso o formato original do terreno, por exemplo, era triangular, o que gerava a sensação de que a quantidade de vigilantes era muito maior do que realmente existia.

Mas, por mais que essas informações ganhem vida conhecendo o local pessoalmente, nada se compara ao clima existente por ali, ainda que tenha se passado tantas décadas. A energia que se sente ao ver a frase “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta) logo no portão de entrada é pesada e muitos já se emocionam de cara.

Para mim, caminhar pelas vias internas e ouvir o som das pedras que ficam espalhadas pelo chão serviu como uma máquina do tempo e facilitou ter um milésimo de noção do que os prisioneiros ali vivenciaram. Mais do que qualquer história, aquele som jamais sairá da memória.

Entrar nos barracões que ainda estão de pé, evidentemente, também é uma experiência marcante, mas que não deixa dúvida de que o ambiente é pesado. O cheiro que exala do local é estranho e digo que não é devido apenas ao incêndio que ocorreu em um deles já após a desativação do campo.

Local onde centenas de presos tinham poucos minutos para usar o banheiro pela manhã

Ainda que Sachsenhausen não seja tão badalado quanto outros campos, diria que ele tem atrativos históricos tão ricos quanto os mais famosos, já que ele serviu como modelo e foi o local de formação dos oficiais que participaram desta triste fase da história. Além disso, vale lembrar que após o final da Segunda Guerra o espaço também serviu de prisão para os soviéticos, que utilizaram o mesmo para deixar ali alguns nazistas que sobreviveram após 1945.

Bastava cruzar a zona neutra, ou ser jogado nela por alguém, para ser fuzilado

Os russos também proporcionaram muitas histórias ao campo de concentração. Uma delas é das noivas que eram obrigadas a irem até lá com seus maridos para celebrar perante o comunismo o matrimônio neste “belo” ambiente e assim recebiam a benção do governo, que de forma “discreta”, lembrava o seu poder aos pombinhos.

Antes disso, Sachsenhausen foi palco de um dos mais sangrentos extermínios que temos conhecimento durante a segunda guerra. Em poucos dias aproximadamente 15 mil soviéticos foram mortos, em um processo considerado frio demais até mesmo para os nazistas.

Uma das solitárias, onde ficavam os presos políticos

Mas este campo de concentração não se restringia apenas aos prisioneiros russos e judeus. Ciganos, gays, líderes sindicais e políticos, entre outros, também marcavam presença por ali em grande número.

Forca e o muro de fuzilamento ainda são originais da época

Ao deixar este local, provavelmente o visitante sai com mais questionamentos do que certezas (pelo menos este foi o meu caso) de como é possível alguém ter coragem de criar algo assim. Mas por outro lado, como disse logo no início, ali você pode ao menos tentar entender a realidade que essas pessoas tinham, mesmo que não seja possível aceitar.

Resumindo, se você gosta de locais históricos e não se abala pelo ambiente, ao visitar Berlin, tente conhecer Sachsenhausen, pois vale muito a pena. Certamente a sua bagagem cultural sairá bem mais “pesada”.

O crematório, também conhecido como ponto Z


Texto de dezembro de 2015

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